Saturday, June 25, 2011

Minimoog model D (texto em português)



No início dos anos 50, o então estudante e futuro engenheiro eletrônico Robert Arthur Moog interessou-se pelo funcionamento dos Theremins e começou a fabricar e vender kits para montagem do instrumento. Fundou então, em 1953, uma empresa própria, a R. A. Moog Co. Os primeiros Theremins feitos por Robert Moog eram valvulados mas, a partir de 1961, ele passou a fabricar Theremins transistorizados e foi justamente esta novidade, o transistor (muito menor e mais barato do que as tradicionais válvulas) que possibilitou as pesquisas e a invenção do instrumento que estaria prestes a mudar completamente o mundo da música: o sintetizador Moog!



No final de 1963, Robert Moog conheceu o compositor e professor Herb Deutsch em uma conferência em New York e durante todo o ano seguinte os dois trabalharam no desenvolvimento do protótipo de um sintetizador de sons. A primeira apresentação pública deste novo instrumento foi em outubro de 1964 e a grande novidade desenvolvida por Robert Moog foi o uso de Voltagem Controlada, o que – no caso dos Osciladores – permitia o instrumento ser tocado por meio de um teclado similar ao de um orgão ou piano, com certa estabilidade na afinação. Este primeiro modelo ainda levou três anos sendo aperfeiçoado até que, em 1967, o músico e engenheiro de gravação novaiorquino Walter Carlos (que depois passou a ser chamado Wendy Carlos – história que merece ser contada em detalhes mais adiante) começou a se interessar e adquirir módulos da Moog para montar seu próprio sintetizador. Carlos sugeriu várias mudanças e facilidades para Robert Moog e no mesmo ano era lançado no mercado o primeiro sintetizador Moog a ser comercializado, o modelo 900. Como demonstração foi realizada uma gravação composta e produzida por Carlos. No ano seguinte – 1968 – Carlos e Rachel Elkind (então secretária do presidente da CBS, Goddard Lieberson) começaram uma série de gravações da obra de Johann Sebastian Bach totalmente realizada no Moog – alguns artistas pop ja haviam utilizado o Moog em discos, mas a primeira experiência feita completamente utilizando a novidade foi o álbum que resultou destas gravações: “Switched-on Bach”, até hoje um dos discos de música erudita mais vendidos no mundo! "Switched-on Bach" não só abriu caminho para um número infinito de discos do gênero que surgiriam depois como definitivamente deu o devido lugar de destaque ao sintetizador entre os instrumentos musicais.


Mas os primeiros sintetizadores Moog ainda eram instrumentos enormes, modulares, cheios de cabos interligando estes módulos e seu transporte era muito complicado para uso em shows (embora Keith Emerson usasse um com sua banda The Nice desde 1968). Então, no final do ano de 1969, Robert Moog juntamente com o também engenheiro eletrônico Bill Hemsath deram início o projeto de um modelo portátil, chamado Minimoog model D (obviamente existiram 3 protótipos antes do Minimoog entrar na linha de produção, o modelo A, o B e o C). Este modelo foi fabricado durante mais de uma década (1970-1981) e é o instrumento mais conhecido da Moog (o que não quer dizer que foi o mais comercializado, já que só foram fabricados 13.259 Minimoogs).

O conceito original do Minimoog baseava-se na utilização de alguns componentes básicos do sintetizador modular e integra-los em uma unidade compacta e que não precisasse do uso de cabos interligando módulos. A idéia inicial era que os compradores do Minimoog seriam basicamente músicos que quisessem uma versão menor do Moog Modular para utilizar em shows. Robert Moog não tinha idéia de como esta unidade portátil seria montada – se compararmos com fotos dos sintetizadores Moog Modulares entenderemos bem – então vários esboços foram feitos até o design final, conhecido e pouco modificado durante os anos seguintes. Muitos dos desenhos e protótipos desta época utilizavam estrutura de plástico, mas a decisão de utilizar madeira na versão final foi tomada porque, com este material, seria possível confeccionar o chassi dentro da própria marcenaria instalada na R. A. Moog Co. A primeira demonstração pública para comercialização do Minimoog foi em junho de 1971 (exatos 40 anos atrás) na convenção da National Association of Music Merchants.



O Minimoog tem um funcionamento relativamente simples. Seu sistema é formado por três osciladores (cada qual com um seletor para seis variações nas formas de onda geradas, outro seletor de oitavas e – nos Ociladores 2 e 3 – um knob de afinação individual), um mixer, um gerador de ruídos rosa e branco, um VCA (voltage-controlled amplifier) e o clássico e imbatível filtro de 24dB por oitava característico dos sintetizadores Moog. Na sessão de saída de áudio do Minimoog encontra-se um switch que aciona uma nota Lá (em 440 hz.) para afinação dos osciladores e uma saída para fones de ouvido completamente independente. Um knob para afinação geral do Minimoog, outro para adicionar ruido ao wheel de modulação e outro ainda para acrescentar portamento entre as notas completam o painel frontal do Minimoog. Ao lado do teclado, com extensão de 44 notas (de Fá a Dó), existem dois controles (wheels): um de afinação e outro para modulação. Por se tratar de um instrumento monofônico, somente uma nota por vez pode ser tocada (prevalence a mais grave).



Na parte traseira (ou superior, já que o painel do Minimoog é dobrável, o que permite melhor acesso a todos os controles), além das duas saídas de áudio (de baixa e alta impedância) existe uma entrada de áudio – que permite passar qualquer sinal pelo filtro. Além disso, uma entrada de S-trigger e jacks para controles externos de loudness, do filtro e dos osciladores permitem o uso de ribbon controllers, unidades de sample-and-hold e outros acessórios mais que foram sendo inventados e aperfeiçoados para a utilização com o Minimoog.





Um número de artistas praticamente impossível de calcular utilizou – e utiliza ainda – o Minimoog em suas gravações e show. Como sempre, para ficar nos mais conhecidos (e meus preferidos, portanto mais importantes na minha concepção) cito em primeiro lugar o músico de jazz Sun Ra (já o havia citado como um dos primeiros artistas a utilizar o piano elétrico Wurlitzer). Ele ganhou um dos primeiros protótipos do Minimoog, o modelo B e existe filmagem dele utilizando este intrumento, inclusive! Keith Emerson foi o primeiro a utilizar um Minimoog em uma tour, com o Emerson Lake and Palmer nos shows do álbum “Pictures at an exhibition” (em 1970). Outra figura importante nos primeiros dias de vida do Minimoog foi David Borden. Em 1969 ele formou o Mother Mallard’s Portable Masterpiece Co., considerada a primeira banda a utilizar exclusivamente sintetizadores (antes mesmo do Tonto’s Expanding Head Band e do Tangerine Dream). David tinha um contato muito próximo com o Dr. Robert Moog e também foi um dos primeiros a utilizar um Minimoog em um concerto em junho de 1970, na Trinity Church, em New York.



Outros grandes nomes a utilizarem o Minimoog foram Rick Wakeman (em praticamente todos os seus discos, tanto os álbuns solo quanto os com o Yes. Três dos seus discos solo que valem a pena ouvir são o “Journey to the centre of the earth”, o “Myths and legends of King Arthur and the knights of the round table” e o “No earthly Connection”), a banda alemã Kraftwerk (existem vários vídeos do Ralf Hütter utilizando um Minimoog no youtube), Benny Anderson (O Minimoog dele era pintado de branco e existe um vídeo de um show do Abba no Wembley Stadium em Londres no qual Anderson aparece tocando nele a famosa introdução de “Gimme! Gimme! Gimme! A man after midnight” sampleada por Madonna na sua “Hung up”), David Bowie, Mark Mothersbaugh e Bob Casale (Casale utilizava um para tocar as linhas de baixo de várias músicas do Devo), Fabrice Quagliotti (tecladista dos Rockets, banda francesa de space-rock), Gary Numan (seu disco de 1979, “Replicas”, foi praticamente todo feito a partir do Minimoog), Tangerine Dream, Ultravox, Blondie, Vince Clarke (com o Depeche Mode, o Yazoo e o Erasure), Giorgio Moroder, Brian Eno, Bernie Worrell (Parliament/Funkadelic e Talking Heads), Manfred Mann, Jean Michel-Jarre, Vangelis, Rod Argent (na sua fase “progressiva”, com a banda que levava seu sobrenome, Argent), Patrick Moraz e Geoff Downes (ambos passaram pelo Yes em épocas diferentes), Steve Hillage (tinha um customizado, na cor azul), Tony Carey (com o Rainbow e na sua carreira solo, que é muito legal), Chick Corea, Jan Hammer (Mahavishnu Orchestra), Klaus Schulze, Francis Rimbert, Herbie Hancock, Flavio Premoli (da banda italiana Premiata Forneria Marconi. Existe um vídeo dele no youtube demonstrando um Minimoog no canal de TV italiano RAI UNO, em 1972), Larry Fast (tanto no seu projeto solo, Synergy, quanto na banda de Peter Gabriel e como músico e programador de sintetizadores no disco “Love on the Beat”, de Serge Gainsbourg), a banda eletrônica Hot Butter e meus amigos Gershon Kingsley (compositor de “Popcorn”), Brian Kehew (da dupla The Moog Cookbook, com Roger Manning Jr.) e Herb Deutsch (já citado anteriormente no texto).


Comprei meu Minimoog em setembro de 2008. Algumas semanas antes tinha ido visitar o amigo e ótimo técnico que conserta meus equipamentos - o Cardoso - na sua oficina. Quando cheguei me deparei com o Minimoog por lá. Perguntei de quem era, ele me informou que o dono era o Angelo Pastorello (ex-baixista da banda Violeta de Outono) e que o então tecladista da banda, o Fernando, tinha deixado para calibrar e resolver pequenas coisas. Fiquei esperando ele chegar, peguei o contato do Pastorello e começamos uma negociação. No início ele me pediu uma fortuna, mas acabei comprando por metade do que ele queria (o que ainda dava uma pequena fortuna. Meu Minimoog é até hoje o instrumento que paguei mais caro). Enfim, negociação feita, depósito efetuado e eu tinha que ir buscar o instrumento na casa do Fernando – a esta altura já tinha sido consertado e liberado pelo Cardoso. Como todo e qualquer dinhero que eu possuia foi usado para comprar o instrumento, nem pensar ir de taxi. Fui e voltei da casa dele (perto da USP, em SP) de ônibus, trazendo o Minimoog. E sem case! Mas valeu todo e qualquer esforço, o instrumento está em ótimo estado, acredito que não tenha sido muito usado em shows pelo Violeta de Outono, embora nos discos todos (até 2008, pelo menos) lá está o som dele! Uso meu Minimoog sempre que possível, em shows e gravações. Meu novo álbum, “Zeitgeist/propaganda”, que será lançado em agosto próximo, é praticamente todo baseado nos sons do Minimoog (seja como instrumento principal ou utilizando os osciladores como base rítmica das músicas ou ainda passando ele pelo vocoder). O número de série do meu Minimoog é 9071 (foi testado e saiu da fabrica no dia 13 de julho de 1977)!




photos: Kay Mavrides e divulgação/internet

Gravei este video na sexta, dia 24 de junho de 2011!




Outros vídeos legais são:
Breve história do Minimoog



Trecho de um documentario realizado pela BBC em 1980 com o Dr. Robert Moog demonstrando um Minimoog



Sun Ra utilizando seu Minimoog model B (prototipo "emprestado" pelo Dr. Robert Moog)



Foto do Minimoog model B:



Foto dos quatro modelos de Minimoog lado a lado:



Anúncios originais que achei pela internet:






Duas fotos raras do David Bowie com um Minimoog:





E aqui esta o manual do Minimoog model D (para download, em pdf):
http://www.vintage-manuals.com/category/35-moog-minimoog.html

4 comments:

  1. Muito bom que se divulgue a história destes instrumentos maravilhosos que são os sintetizadores. Deixo o link deste blog que fiz com dicas sobre conexão e configuração de sintetizadores, controladores MIDI e software para música: https://sintetizandoemusicando.blogspot.com/

    ReplyDelete