Friday, February 28, 2014

Entrevista com Arthur e Corinne Cantrill


A Austrália é um país muito grande e ainda mantém seus mistérios e segredos, principalmente para pessoas que, como eu, vivem no outro lado do planeta. É muito estranho que as experiências com filmes e com música eletrônica nos anos 50 e 60 não tenham alcançado nossos olhos e ouvidos tão "facilmente" quanto as músicas e filmes produzidos em outros países. Do compositor Percy Grainger e suas invenções com Burnett Cross ao CSIRAC (um dos primeiros computadores digitais utilizados para criar música eletrônica no mundo), algumas das mais impressionantes experiências sonoras vêm da Austrália. Nos primórdios, muitos pioneiros na música eletrônica e nos filmes experimentais tiveram que mudar-se da Austrália para a Europa, para atigir um público maior com sua arte. Em parte, não foi diferente com o casal Arthur e Corinne Cantrill.

Arthur Cantrill (nascido em 1938) e Corinne Cantrill (nascida em 1928) são naturais da cidade de Sydney. Eles se conheceram no final dos anos 50, quando ambos trabalhavam com crianças, na Austrália. Logo, seu amor pelos mesmos assuntos - especialmente filmes experimentais - levou-os a começar uma vida juntos e criar mágicos e misteriosos filmes, incluindo suas trilhas sonoras e as maneiras nada convencionais que eles escolhem para exibir suas obras!

Os Cantrills são também responsáveis pela publicação independente 'Cantrills Filmnotes' - editada entre 1971 e 2000-, dedicada a filmes experimentais, videos, instalações, sons e performances artísticas - cobrindo atividades não somente na Austrália, mas também na Nova Zelandia, U.S.A., Canadá, Filipinas, Indonésia, França, Alemanha, Holanda, Austria e Inglaterra. Todas as edições anteriores podem ser encontradas através do site oficial do Arthur e da Corinne Cantrill. Em 2010, o selo Shame File Music lançou uma coletânea com trilhas sonoras criadas para seus filmes, compostas entre 1963 e 2009 ('Chromatic Mysteries - Soundtracks 1963 to 2009') e também está lançando o LP 'Hootonics', contendo músicas criadas por Arthur Cantrill para o longa metragem 'Harry Hooton', feito em 1970 pelo casal. Você pode encontrar ambos os lançamentos através do website da Shame File Music.

Eu entrei em contato com Arthur e Corinne Cantrill pelo Facebook e, logo em seguida, por email (através do website deles), convidando-os para esta entrevista, que eles gentilmente aceitaram e rapidamente responderam. É muito legal ter a oportunidade de contatar os dois, entrevistá-los e conhecer um pouco mais sobre eles e sobre os primórdios dos filmes experimentais e da música eletrônica na Austrália! Espero conhecê-los pessoalmente algum dia desses! E agora, a entrevista!


ASTRONAUTA - Arthur e Corinne, como foram suas infâncias e quais foram seus primeiros contatos com as artes, especialmente com o cinema e a música?

CORINNE - Eu nasci em Sydney, em 1928. Meus pais não faziam parte do que é considerado 'normal' para a fechada e limitada sociedade da época - minha mãe fazia parte da Theosophical Society e meu pai tornou-se membro ativo do Partido Comunista. Ambos eram bastante 'outsiders', íam contra as regras. Como várias famílias, nós fomos duramente afetados pela Grande Depressão, mas meus pais eram muito espertos e conseguimos sobreviver. Seu casamento era infeliz e isso me afetou de maneira negativa - me sentia distante de ambos, muito solitária. Eu tinha poucos amigos.
Eu ía bem nos estudos e ganhei uma bolsa em uma importante escola secundária, quando tinha 12 anos. Minhas maiores influências foram os excelentes professores que eu tive naquela escola.
Durante a década de 30, eu tinha plena consciência e ficava muito assustada com os acontecimentos na Alemanha Nazista, na Espanha, Itália e na invasão japonesa na China, principalmente porque eu era judia.
Desde muito jovem, eu ía ao cinema sozinha, nas tardes de sábado - 99% das sessões apresentavam filmes 'hollywoodianos', além de noticiários, 'March Of Time', 'Flash Gordon's Trip To Mars', 'Our Gang', o Gordo e o Magro, Chaplin, Robert Benchley, etc. Geralmente as atrações que eram exibidas antes dos filmes eram mais interessantes do que os próprios. 
Outra influência cultural, desde muito jovem, foi a leitura. Eu tinha vários livros bons e eu mesma inventei meu método para catalogá-los.
Minha mãe era uma ótima pianista amadora e eu cresci ouvindo-a tocar os clássicos. Outra grande influência era o rádio, principalmente a estação não-comercial nacional da Australian Broadcast Commission. Tinha bons programas musicais, radio-novelas e, em especial, um programa infantil diário: The Argonauts' Club. Eles incentivavam o interesse das crianças nas artes, música, estudos naturais, poesia e podíamos ouvir grandes clássicos como 'A Odisséia', 'Ilíada', lendas vikings, etc, etc. Também eramos incentivados a enviar nossos próprios trabalhos artísticos, poemas, etc.
Aos 14 anos eu não tinha mais nenhum interesse nos filmes de Hollywood; ao invés disso, passei a experimentar com o teatro. Em Sydney existia um grupo notável - The Independent Theatre - que apresentava os clássicos do repertório treatral: Shakespeare, Molière, Chekhov, Ibsen, Strindberg, G. B. Shaw, Oscar Wilde, Eugene O'Neill, as tragédias gregas e também teatro infantil. Eu ía à todas as produções. Depois da guerra, em 1945, filmes da França, Itália e Inglaterra começaram a chegar em Sydney e eram exibidos em um 'cinema de arte'. Eles eram muito diferentes dos filmes de Hollywood que eu assistia quando era criança e eram muito inspiradores... (Mas nada da União Soviética apareceu até os anos 50.)

Em 1943, aos 15 anos de idade, eu deixei a escola. Este fato causou uma grande infelicidade nos meus professores do segundo grau, que acreditavam que eu estava arruinando minha vida. Por conta da guerra ter estourado no Pacífico, existiam muitas oportunidades de trabalho temporário, em empregos interessantes - até que os homens voltassem da guerra. Eu participei de um treinamento rudimentar em procedimentos laboratoriais e então fui trabalhar na Comissão Florestal, para manter seu pequeno laboratório de Micologia (estudo dos fungos) em funcionamento.
Eu passei a me interessar bastante por Botânica e decidi estudar assuntos relacionados com isto na Sydney University, como estudante não-matriculada (o que significa que eu podia fazer os cursos e exames, mas não obter graduação.)
Eu era uma estudante exemplar e me foi permitido trabalhar como monitora das aulas práticas do Primeiro Ano de Botânica (supervisionando e trabalho prático, tirando dúvidas, fazendo correções.) Esta oportunidade também aconteceu porque os homens mais experientes no assunto estavam lutando na guerra. 
Paralelamente ao meu envolvimento com Botânica/Ciências, passei a frequentar um círculo de amigos alguns anos mais velhos do que eu, escritores, artistas, músicos, poetas. Nós discutíamos literatura, íamos à exposições de arte e tentávamos conhecer ao máximo sobre a arte contemporânea européia. A Austrália era muito isolada culturalmente, e isto nos frustrava muito.
Em fevereiro de 1948 - eu tinha 19 anos de idade - eu deixei a Austrália e fui viver por cinco anos na Europa, uma experiência culturalmente muito rica. Eu já não me interessava mais por Botânica/Ciências; ao invés disto, queria mergulhar a fundo nas artes, especialmente na música.
Eu morei em Londres por um ano, frequentando as aulas noturnas no Morley College, indo a teatros, concertos, cinemas, galerias e museus.
Em 1949 eu deixei Londres e fui viver em Paris por 18 meses - uma cidade muito mais bonita, uma vida cultural muito mais rica. Eu escrevia para revistas australianas sobre Paris, como uma forma de obter renda.
Eu também me tornei membro do Ciné-Club du Quartir Latin - haviam várias programações durante a semana, muito abrangentes: clássicos do cinema, filmes políticos, trabalhos novos. Também haviam dezenas de pequenas salas de cinema em Paris, exibindo todo o tipo de filmes.
Mais tarde, em 1950, incapaz de renovar meu visto de estudante, eu fui embora de Paris para viver em Roma nos dois anos seguintes. Era muito refrescante estar na Itália, depois de toda a frieza com a qual a França trata os estrangeiros! A sociedade italiana lidava melhor com as qualidades humanas.
Os italianos eram mais articulados e abertos a analisar e discutir suas vidas, especialmente suas experiências durante o regime Fascista, a guerra e a ocupação alemã.
Roma também era um grande centro para o cinema, para a música e para a ópera.
Eu me mantinha dando aulas de Inglês para um grande número de pessoas, incluindo crianças. Para os italianos, uma pessoa educada devia falar quatro línguas. As familias e as pessoas para as quais eu lecionei Inglês tornaram-se minhas amigas, quase uma família para mim. Eu viajei bastante na Itália. Durante as férias de verão de 1951, eu fui para a Yugoslavia como parte da International Youth Brigade, para trabalhar por 3 semanas na ferrovia Doboj-Banja Luka. Depois disso eu fui para a Austria e depois para a Alemanha, por quatro semanas - a situação na Alemanha era sombria, mesmo passados seis anos do final da guerra.

Em 1952, uma amiga próxima, de Sydney, juntou-se a mim em Roma e nós viajamos para a Espanha, Portugal, França, Holanda e depois para a Escandinávia. Eu decidi ficar em Copenhagen, novamente dando aulas de Inglês, até que deixei a Europa e retornei a Sydney, em março de 1953.
A vida social da Dinamarca era muito interessante. O senso de justiça social para todas as pessoas era muito forte - muito diferente do sistema de classes na Itália e em outras partes da Europa.
Eu não lembro de ter ido ao cinema (ou ao teatro) nenhuma vez em Copenhagen! Fui a concertos, a eventos sociais e lía bastante (graças à biblioteca do British Council.)
Na época, a Europa parecia estar se encaminhando para uma nova guerra - Stalin era instável e parecia estar enlouquecendo. Eu tive mais problemas com permissões para trabalhar e vistos de permanência e, apesar das boas amizades, parecia que eu seria sempre uma 'outsider'.
Eu peguei um dinheiro emprestado com meu pai e retornei a Sydney na metade de 1953.
As experiências das grandes cidades, as paisagens, a arte e especialmente a arquitetura européia são um privilégio. Mas, paralelamente a isto, existe um certo desespero nos países, nas sociedades e nas mentes dos indivíduos, por causa dos efeitos da(s) guerra(s). Percebo isto, até hoje em dia.
Voltando a Sydney, primeiramente eu trabalhei como vendedora comissionada, profissão que me fez ganhar bastante dinheiro. Mas era exaustivo, então eu tive que parar. Por acaso, conheci uma mulher fascinante, que havia sido pioneira no uso da arte como meio de expressão para as crianças. Ela tinha vários Children's Creative Leisure Centers (centros de lazer criativo para crianças) em Sydney, onde as crianças eram incentivadas a interessarem-se por várias atividades (mas nada era formalemente 'ensinado'). As pessoas que lá trabalhavam providenciavam materiais para as criancas e as incentivavam. Eu trabalhava em um destes centros e achava o trabalho muito interessante.

ARTHUR - Infância!
Eu tinha tendências a ser uma pessoa solitária, com poucos amigos. Eu não tinha interesse por esportes. Minha família não era nem um pouco 'cultural' - tínhamos poucos livros em casa - mas eles me deram a oportunidade de ter aulas de piano (eu ainda gosto de tocar piano) e eu também tive algumas aulas rudimentares de violino, no primeiro do segundo grau, a fim de participar da orquestra escolar. Eu utilizava o violino que meu pai tocava, quando era criança. Não tinha aulas de música depois do primeiro ano. A educação artística na escola primária não havia sido muito inspiradora e não havia arte alguma no segundo grau. Eu não era levado à exposições de arte pelos meus pais - o único museu que eu frequentava era o museu de história natural.
Meus primeiros sete anos de vida foram dominados pela Segunda Guerra Mundial - os japoneses eram  uma ameaça real, depois que haviam bombardeado Darwin, e eles estavam enviando submarinos para o porto de Sydney. Meu pai se ofereceu para patrulhar o porto com seu barco a motor. Ocasionalmente, nos assuntávamos com os ataques aéreos.
Influenciado por um colega de escola, me interessei por música clássica e ouvia os programas musicais no rádio, bem como o programa infantil, 'The Argonauts' Club', que a Corinne mencionou, a história de Jasão e os Argonautas e a busca pelo Velo de Ouro. Comecei a colecionar LPs e discos de 78 rotações.
Minha vida mudou de repente, quando eu tinha 12 anos de idade e descobri um teatro de fantoches infantil, dirigido pela organização que a Corinne mencionou, o centro pioneiro em lazer criativo para crianças. Mergulhei na arte de fazer fantoches (de luva, marionettes e bonecos de cordas), pintando cenários, escrevendo peças, ensaiando e apresentando nas tardes de sábado. Participamos em uma apresentação pública no The Independent Theatre e eu dirigi o teatro de fantoches por um ano quando o diretor oficial saiu em turnê.

Meu primeiro envolvimento na produção de filmes foi quando eu apareci em dois filmes educacionais sobre marionettes, realizados no teatro de fantoches. (Mais tarde, alguns dos nossos primeiros filmes, no início dos anos 60, eram filmes infantis e foram utilizados na televisão na Austrália, Nova Zelândia e Irlanda.)
Eu deixei o teatro de fantoches aos 19 anos de idade, quando eu me empreguei em tempo integral na organização de outro centro infantil em Sydney. Trabalhando lá, ampliei meu círculo de amizades com pessoas enolvidas na vida cultural de Sydney e, através deles, eu conheci o poeta-filósofo Harry Hooton, que influenciou muito a minha arte. Mais tarde, em 1970, Corinne e eu fizemos um longa metragem, 'Harry Hooton', inspirado na sua filosofia.
A partir dos sete ou oito anos de idade, eu ía regularmente as sessões de cinema para crianças, aos sábados à tarde, assistir desenhos animados, filmes de aventura, séries. Eu tinha três cinemas de bairro à minha escolha, dois deles a uma curta distância a pé, o Ritz e o Odeon, e o terceiro - o Boomerang - ficava à distância de uma curta viagem de ônibus elétrico. Comecei a ficar seriamente atraído por cinema na minha adolescência - alguns 'filmes de arte' europeus eram exibidos na Austrália, nos anos 50, e existia um cinema voltado especialmente para estes filmes na cidade, o Savoy. 'The Wages Of Fear', do Clouzot, me impressionou e eu lembro de assistir 'La Strada', do Fellini, e me sentir inspirado, com a sensação de que filmes poderiam realmente ser uma arte.
Os festivais de cinema exibiam alguns filmes experimentais na década de 60 e os grupos de cinema exibiam o que estivesse disponível - filmes soviéticos e também filmes de várias embaixadas estrangeiras.
Me impressionei muito com as composições sonoras vindas do BBC Radiophonic Workshop, que ocasionalmente eram transmitidos pela Australian Broadcasting Commission. (Mais tarde, quando eu estava trabalhando como editor de imagens na BBC, solicitei ao departamento - BBC Radiophonic Workshop - para criarem uma pequena peça para um documentário que eu estava editando.) Eu tomei consciência das possibilidades da música experimental.

ASTRONAUTA - Como e quando vocês se conheceram? 

CORINNE - Eu conheci o Arthur através dos centros de lazer criativo para crianças - ele também trabalhava em um destes centros, em Sydney.
No final de 1955, eu mudei de Sydney para Brisbane. Então, abri um centro para criancas lá, com duas amigas, e o mantinha funcionando aos sábados e nos feriados escolares, sem nenhuma ajuda financeira. Era um centro para criancas vindas de famílias em condições desfavoráveis.

O Arthur veio para Brisbane para me ajudar em um workshop, num feriado escolar, em 1959.
E foi assim que entramos no ramo de filmes: a sede da nossa organização, em Sydney, já estava fazendo documentários de 10 minutos sobre as atividades nos Centros, para a TV nacional - Arthur havia participado em alguns destes curta-metragens.
Como o trabalho que fazíamos com as crianças em Brisbane era diferente, nossa sugestão foi que fizessemos uma série de filmes para a sede da organização. Eles aceitaram e nos pagaram um cachê por cada filme. Com este dinheiro, nós compramos nosso primeiro equipamento de filmagem. Naquela época, a rede de TV nacional - a ABC TV - apoiava ativamente os cineastas. Nós fizemos uma série de filmes para a programação infantil, incluindo uma série de dez episódios retratando 'A Odisséia', de Homero, com teatro de sombras. Nós também fizemos um grande número de curtas metragens (de 4 ou 5 minutos cada) para serem inseridos entre os programas, já que a ABC não tinha intervalos comerciais. Nestes curta-metragens, nós experimentamos com diversas idéias, tanto na imagem quanto no som.
Nós tivemos uma importante colaboração com o compositor Larry Sitsky, que também morava em Brisbane na época - um homem talentoso e inteligente. Ele compôs as trilhas sonoras para seis dos nossos filmes.
Havia também um cine-clube muito bom, o Brisbane Cinema Group, gerenciado por Stathe Black, que locava todos os filmes experimentais que havia na Austrália na época, através das embaixadas da Alemanha, França, Canadá e também através de outras cinematecas. Eles exibiam estes filmes em programações mensais. (A primeira exibição do um trabalho nosso foi através do Brisbane Cinema Group, em 1965, em um evento de despedida, antes de irmos embora da Austrália em 1965, quando fomos para Londres.)

ARTHUR - Como a Corinne disse, no final dos anos 50 éramos ambos empregados da organização que gerenciava os 'Creative Leisure Centres', baseados na filosofia de "educação através da arte", de Herbert Read, onde as crianças podiam explorar todos os aspectos da arte e do artesanato, com o mínimo de instrução.
Em 1959 eu fui enviado para ajudar a Corinne a organizar uma demonstração de atividades artísticas infantis em Brisbane, no lado de fora de uma biblioteca pública, e no conhecemos. Rapidamente, decidimos que começaríamos nossas carreiras cinematográficas. Nossos primeiros filmes foram uma série mostrando as crianças explorando a arte, o artesanato e a manipulação de fantoches. Estes filmes foram utilizados na televisão.

ASTRONAUTA - Como era a cena australiana de cinema experimental nos anos 60? Quais as suas memórias dos seus primeiros passos na realização de filmes experimentais (e suas respectivas trilhas sonoras)?

CORINNE - Haviam algumas pessoas na Australia (em Adelaide, Melbourne, Sydney) que também exploravam as possibilidades no cinema e nas sonoridades - Com algumas destas pessoas, nós tínhamos contato. Algumas outras, conhecíamos apenas os trabalhos.

ARTHUR - Algumas produções de filmes experimentais interessantes eram feitas em Adelaide, nos anos 40 e 50, principalmente por artistas que haviam emigrado do Leste Europeu para a Austrália. (Nós abordamos este assunto em uma edição da nossa revista sobre cinema, 'Cantrills Filmnotes'.) E, em Sydney, cineastas como David Perry, Aggy Read e Albie Thoms estavam fazendo filmes experimentais nos anos 60, influenciados pelo cinema experimental americano.
Nossos primeiros filmes experimentais foram realizados por volta de 1963, quando morávamos em Brisbane. Também compus minhas primeiras trilhas sonoras para estes filmes. Nós também encomendamos algumas trilhas sonoras de compositores inovadores, mas os resultados nem sempre eram tão satisfatórios quanto nas vezes que eu mesmo compunha para nossos filmes. Meus resultados eram menos 'musicais', eram mais abstratos, mas bem melhor relacionados com as imagens.

ASTRONAUTA - Quais foram as principais diferenças que vocês encontraram quando mudaram-se para Londres, na segunda metade dos anos 60?

CORINNE - A Londres dos anos 60 era um ótimo lugar para encontrar artistas do mundo todo - que trabalhavam com as mais diversas mídias. Era um local muito estimulante de se estar - o Arts Laboratory fazia vários eventos, com teatro experimental, música e filmes todas as noites da semana - havia uma série de pequenos espaços, então eles podiam abrigar duas ou três performances diferentes a cada noite.
A livraria de Bob Cobbing, 'Better Books', também era um local onde aconteciam eventos com filmes interessantes.

Em 1967/68 (entre dezembro e janeiro), nós participamos do Knokke Experimental Film Competition, na Bélgica, organizado pelo falecido Jacques Ledoux, um grande homem. As pessoas vinham de todos os lugares do mundo para o evento - houve uma retrospectiva da obra de Gregory Markopoulos, a estréia do filme 'Wavelength', de Michael Snow, com os sons separados, em aparelhos poderosos, aparelhos para geração automática de filmes, muitos filmes americanos - Robert Nelson, Gunvor Nelson, Will Hindle, Paul Sharits; filmes realmente muito poderosos, vindos da Alemanha e da Austria, do Japão e da Inglaterra - Stephen Dwoskin, Malcolm Le Grice, Don Levy, Yoko Ono (cujos eventos e performances nós já conhecíamos, de Londres.) Por tudo isso, foi uma experiência muito completa, deu uma virada nas nossas vidas como cineastas.
Estávamos sem saber direito o que faríamos a respeito dos nossos filmes, se faríamos filmes de animação mas, depois do Knokke, nós tivemos certeza que deveríamos trabalhar em uma área mais experimental.
Um pouco antes de irmos para o Knokke, estivemos nos três dias do Cambridge Animation Festival - a retrospectiva principal lá foi sobre o Alexandre Alexeieff (ele estava presente). Nós também assistimos ao filme 'Fat Feet', do Red Grooms, algumas animações interessantes vindas da França e do Japão, especialmente as feitas por Yoji Kuri.
No ano seguinte, 1968, o Cambridge Animation Festival contou com trabalhos de Len Lye - ele também estava lá - e foi um evento bastante emocionante, ele era uma pessoa muito dinâmica, foi interessante tê-lo encontrado. E, muito importante, ele vinha da Nova Zelândia, um lugar muito pequeno - muito menor que a Austrália.

No ano de 1968, depois do Knokke, realizamos vários filmes importantes: 'Red Stone Dancer' - um tributo à nossa mudança de vida que foi ter ido ao Knokke - e, depois, 'Moving Statics', uma importante colaboração com o artista abstrato e teatral/mímico Will Spoor, de Amsterdam, mas que se apresentava em Londres, no Arts Laboratory. Trabalhar com Will Spoor era muit bom, já que ele entendia as possibilidades do cinema e também as técnicas de animação ao vivo. Ele também criou efeitos sonoros incomuns com sua voz, com objetos, etc. Então, foi uma colaboração fantástica entre nós três - muito intensa e inteligente. (Will Spoor ainda está vivo - ele tem 86 anos de idade - tivemos a visita de um dos seus jovens amigos, recentemente.)
Nós fizemos outros dois filmes com Will Spoor: 'Rehearsal at the Arts Laboratory' e 'Imprints' (este último filme foi feito com fragmentos de 'Moving Statics'.)

Em março de 1969, nós retornamos à Australia, onde Arthur havia recebido uma bolsa de estudos em Artes Criativas, na Australian National University, em Canberra.
Este foi um período de trabalho intenso, foi quando fizemos vários filmes importantes e também quando fizemos nossa primeira performance com Expanded Cinema, multi-screen e obras multi-image - os filmes eram projetados em telas pegando fogo (ao ar livre), na água, filmes projetados em objetos, em telas texturizadas, em telas em movimento, telas tri-dimensionais. Todos os filmes necessitavam que Arthur trabalhasse no som, bem como na imagem.
Devo dizer que nós dois tínhamos um forte interesse em todos os tipos de música e sons: clássicos, antigos, étnicos, avant-garde, folk, etc. Nós também trabalhavamos com sons do mundo natural: pássaros, insetos, água, vento, tempestades, o oceano, cachoeiras - usávamos estes sons como música.
Nós sempre trabalhamos em nossos filmes (editando, gravando os sons, etc.) na nossa casa, por causa dos nossos filhos, quando eles eram mais novos e, falando de um modo geral, nós raramente trabalhávamos com outros profissionais das áreas de imagem e som. Mas houveram excessões notáveis: nosso envolvimento com Larry Sitsky, com o compositor Chris Knowles, com o poeta Garrie Hutchinson, com o poeta sonoro Jas H. Duke. E, mais recentemente, trabalhamos com músicos improvisando ao vivo junto com nossos filmes, em performances especiais: Robin Fox, Clinton Green e outros. Todo o nosso trabalho tem sido feito com custo muito baixo, com nós mesmos fazendo tudo. 

Não fazemos filmes novos há algum tempo, porque estamos sobrecarregados com a responsabilidade de cuidar de uma vasta obra, com mais de 50 anos. Não temos interesse em trabalhar com tecnologia digital. Nós dois temos problemas de saúde (não somos mais jovens) e precisamos passar um bom tempo mantendo nosso trabalho já existente em ordem - não apenas os filmes e as trilhas sonoras, mas uma grande biblioteca, com livros, revistas, papéis, fotos/stills/slides, posters, documentação, etc.
Temos apresentado nosso trabalho no mundo todo (infelizmente, não fomos à America do Sul, apresar de que um dos nossos filmes foi exibido em um festival na cidade de Buenos Aires, há alguns anos.) Viajar, hoje em dia, está praticamente fora de questão.

ARTHUR - Trabalhamos em Londres por quatro anos, na segunda metade dos anos 60, realizando tanto documentários de arte quanto filmes experimentais, enquanto eu trabalhava como editor de filmes na Halas and Batchelor Cartoon Films e na BBC. Como a Corinne disse, nós tomamos mais conhecimento dos movimentos de filmes experimentais nos USA e na Europa, especialmente quando participamos do Knokke-le-Zoute, festival de filmes experimentais na Bélgica. Foi lá que nossa abordagem em relação ao som se confirmou, com a utilização inovadora de Michael Snow no seu filme 'Wavelength', por exemplo.) E nós encontramos artistas importantes lá. Tivemos uma longa conversa com Yoko Ono, por exemplo. A experiência no Knokke fez tomarmos a decisão de nos dedicarmos em tempo integral ao cinema experimental.

ASTRONAUTA - Vocês também criaram as trilhas e efeitos sonoros dos seus filmes. Quais eram as técnicas utilizadas por vocês para criarem estas trilhas? 

ARTHUR - Nas primeiras trilhas experimentais, entre 1962 e 1963, eu usava um gravador de fitas Nagra, juntamente com nosso gravador Ferrograph, para produzir faixas repletas de efeitos no piano - dedilhando as cordas, utilizando os sons do teclado, acelerando, desacelerando e revertendo as fitas, e usando os controles separados de line e mike do Nagra para mixar os sons. (Uma destas faixas, feita para o filme 'Galaxy' em 1963, foi lançada no CD 'Chromatic Mysteries, Soundtracks 1963-2009', lançado pela Shame File Music em 2010.) Em outras das minhas primeiras trilhas sonoras, eu mixava, editava e alterava eletronicamente os sons gravados no nosso Nagra (gravações de campo, de pássaros, água e efeitos de piano e percussão, por exemplo), usando técnicas similares às utilizadas pela musique concrète. O objetivo geral era encontrar o equivalente às imagens em áudio, embora houvesse alguma distinção entre som e imagem, às vezes.

ASTRONAUTA - O selo Shame File Music está lancando 'Hootonics', um LP contendo músicas que você criou para o filme 'Harry Hooton', realizado por vocês em 1970. Como foi criada a música desta trilha sonora em específico?

ARTHUR - No filme 'Harry Hooton' eu continuei utilizando as mesmas técnicas descritas acima. Nós adicionamos em Revox semi-profissional aos nossos gravadores Nagra e Ferrograph. Este gravador permitia realimentar o sinal do cabeçote de reprodução, voltando novamente para o cabeçote de gravação, o que era muito útil para gerar efeitos de reverberação e ruído branco, que podiam ser controlados com certa precisão. Eu gravei a saída de áudio de grandes computadores, em uso experimental, em 1969, e eletronicamente alterei os sons e os mixei. Também utilizei 'sons encontrados'. Cantos de pássaros, noticiários de rádio, por exemplo, eram colados e mixados. O som de 'Harry Hooton' foi tranferido para filme magnético de 16 mm, que depois eu editei, antes de mixar em um estúdio de dublagem profissional.
Mais tarde, nós adquirimos um segundo gravador Revox e um equilizador gráfico também foi adicionado, para maiores possibilidades na mixagem do som. A composição que vem como 'bonus', oferecida juntamente com o LP 'Hootonics', é uma composição recente, chamada 'Cicada Mix' (não foi utilizada na trilha sonora do filme). Eu utilizei cigarras, piano, violino e efeitos de xilofone, alterados com o reverber e o ruído branco obtidos com o gravador Revox.

ASTRONAUTA - Alguns dos seus filmes estão sendo exibidos no CCCB/Barcelona, na Xcèntric 2014. Então, parece que 2014 está sendo um ano bem movimentado para vocês, desde o início. Quais são seus planos para o futuro, novos filmes, novas gravações, próximas viagens?

ARTHUR - E um dos nossos filmes está em exibição no Culturgest, em Lisboa, ao mesmo tempo que é exibido em Barcelona. Sem dúvida existirão outras exibições pelo mundo a fora, mas muitas vezes nós não ficamos cientes no momento, porque eles pegam emprestados os filmes de várias coleções. Recentemente, adicionamos trilhas sonoras em alguns dos nossos filmes que anteriormente eram mudos, como 'Imprints' e 'Meteor Crater at Gosse Bluff'.
Nosso próximo projeto é uma retrospectiva multi-tela, dando uma visão geral da nossa carreira cinematográfica, mostrando trechos de filmes e também filmes completos, no Castlemaine State Festival, em 2015. No momento, não temos planos de viajar para o exterior.

CORINNE - Não acredito que 2014 será um ano movimentado para nós, profissionalmente falando! Não temos planos para novos filmes! Nossos novos discos, deixamos aos cuidados da Shame File e do Clinton Green! Não temos viagens planejadas. Em 2010 houve uma grande retrospectiva nossa, 'Grain of the Voice', no Australian Centre for the Moving Image, em Melbourne. E, também na ACMI - 'Light Years' - posters, stills, a revista, filmes inteiros e trechos foram exibidos em quatro monitores, na galeria.  Em 2015, nós esperamos que tenha uma outra retrospectiva em Castlemaine (nós vivemos aqui hoje em dia), no Festival de Artes - nós estamos vendo se é tecnicamente possível de ser realizado aqui.
Quanto ao resto, nós permitimos que outras pessoas peguem emprestado nosso trabalho, de várias coleções que mantém cópias dos nossos filmes, e programá-los. Nosso trabalho é parte de várias coleções na Austrália, em Berlin, em Paris e também em coleções particulares na América do Norte (MoMA, CalArts, Harvard, etc.) e em coleções particulares e em arquivos na Europa.
Não podemos nos incomodar com o trabalho que envolve a transferência digital em alta qualidade dos nossos filmes - além disso, o processo é bastante caro. A ACMI digitalizou alguns filmes para a exibição 'Light Years' e a University of Technology em Sydney recentemente digitalizou um grande filme nosso - mas é isto, apenas. Viver no interior do país hoje em dia faz tudo ser ainda mais problemático. Provavelmente, isto é a aceitação da impermanência das coisas materiais.

Um comentário final! Você está ciente da revista especializada, 'Cantrills Filmnotes', que nós publicamos por 30 anos, entre 1971 e 2000? (Edições nº 1 até nº 93/100.) Tem sido uma grande contribuição para a cena internacional de filmes experimentais, concentrando-se nas pessoas, trabalhos experimentais, avant-garde, filmes, vídeo, sons, animação, etnografia, performance, multi-mídia e multi-screen. Focamos nos trabalhos da região Pan-Pacífica, bem como na Europa - cobrindo apenas pessoas que eram dos nossos interesses -, artistas bem conhecidos, como Nam June Paik, Gregory Markopoulos, George Kuchar e também pessoas desconhecidas ou pouco conhecidas.

Não há uma única coleção das edições da 'Cantrills Filmnotes' na América do Sul, enquanto nós ainda temos cerca de 15.000 edições anteriores em casa! Pense sobre isso, talvez você possa ser a primeira pessoa na América do Sul a ter uma destas coleções, ou apenas alguns números!

ARTHUR - Nos últimos anos, nós temos mixado e editado sons no computador, ao invés de utilizar métodos analógicos - embora eu sinta a falta de mixar os sons em tempo real - havia uma sensação de performance em fazer daquele jeito! Deste modo, as trilhas sonoras dos filmes recentes são executadas em CD, ao invés de utilizarmos a trilha ótica do filme. Isto significa uma melhor qualidade de som estéreo, o que é efetivo em filmes como 'Meteor Crater at Gosse Bluff', um filme de paisagem, projetado em duas ou três telas simultâneamente, enquanto o som estéreo adiciona um efeito espacial. (Esta faixa está no CD 'Chromatic Mysteries: Soundtracks 1963-2009', lançado pela Shame File.)

Para maiores informações sobre Arthur e Corinne Cantrill, acesse seu website:
www.arthurandcorinnecantrill.com





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